Em pleno voo

Bate-papo com o autor Daniel Montoya

Editora Voo - Bate-papo com o autor Daniel Montoya

Por Fernanda Paraguassu
(Coordenadora Editorial)

“Mar grande”. É o significado de Paraguassu, que vem do tupi-guarani. De meu pai, além do sobrenome, herdei dois dicionários ilustrados de Tupi antigo, “A língua do Brasil dos primeiros séculos”. Dessas preciosidades que você guarda para sempre. Quando vi o livro de Daniel Montoya (@dkmontoya), bilíngue português e tupi-guarani, fiquei até emocionada. Lembrei dos meus tempos de infância quando brincava com meu pai de buscar palavras nesses dicionários. Pitanga, mandioca, obá, tatu, Ipanema…

Conversei com Daniel sobre a criação do livro Pergunte à Floresta – Eporandu Ka’agwy upé, publicado pela Editora Voo. A tradução é de Luã Apyká e a ilustração, de Kath Xapi Puri. O livro é uma valiosa contribuição para compreender a história e a cultura indígena no Brasil, explorando a interculturalidade, a territorialidade e as línguas indígenas, como o tupi-guarani. É o ponto de partida para conversas, em casa ou em sala de aula, para romper estereótipos, fortalecer a identidade e a riqueza cultural dos povos indígenas.

Daniel Krüger Montoya (@dkmontoya) nasceu em Curitiba, é escritor, advogado, e pai de duas crianças. Além de Pergunte à Floresta, escreveu Na contramão, Curitiba, editado pela Arte & Letra.

1 – O que o inspirou a criar um livro infantil com temática indígena e perguntas direcionadas à floresta?

Volta e meia penso onde foi que a gente se perdeu, ou seja, quando nos alienamos tanto entre estruturas de ferro e concreto, prédios e carros, que deixamos de perceber que somos natureza, somos os rios e somos floresta. Meu pensamento vai longe, voa e volta sem muitas conclusões, mas com alguma certeza de que há muita sabedoria na floresta, nas pedras e nas montanhas, nos rios e nos mares, que poderiam ensinar à nossa espécie um bom viver. E assim, sem nenhuma intenção de fechar um livro, as perguntinhas começaram a aparecer na minha cabeça, como algo muito sério e solene, mas ao mesmo tempo como algo divertido, uma grande brincadeira com as palavras e a floresta.

2 – Teve alguma ajuda de seus filhos para a construção das perguntas?

Ser pai é um grande impulso criativo, sem dúvida. Tenho duas filhas, e elas participaram da gênese desse livro, porque foi o olhar verdadeiro delas pra floresta que transformou também o meu olhar e a minha relação com a natureza. Depois ajudaram a ver quais perguntas funcionavam e quais não, quais poderiam melhorar, o que poderia ser tema, enfim, se envolveram e viveram essas perguntas, e isso foi muito legal.

3 – Como foi o processo de tradução para o tupi-guarani e o impacto que você espera alcançar ao incluir essa língua no livro?

A língua revela muito do que somos. Realmente penso que uma língua com a riqueza de significados e significativos como o tupi-guarani deveria ser obrigatória para nós desta terra. Pensar que até mesmo palavras que são utilizadas para descrever nosso corpo (como pele, mão, cabelo) são também utilizadas para descrever a natureza (respectivamente, casca da árvore, raiz e penas de aves) já demonstra como a floresta é constituinte dos povos indígenas, como estão envolvidos e implicados com a natureza. Então, a tradução foi um processo importante de aprendizado e de conexão com outra filosofia, outra forma de enxergar o mundo. A gente, como sociedade, ainda tem muito a aprender com as línguas nativas daqui e com os povos originários, e qualquer esforço pra fortalecer o movimento dos povos indígenas é válido. O impacto que espero? Não sei ao certo, acho que só o fato de as pessoas se abrirem para uma outra sensibilidade já seria uma grande vitória.

4 – Qual foi a importância de contar com uma ilustradora indígena para o projeto e como foi a colaboração entre vocês?

Só faria sentido sendo da forma que foi. Parece que o projeto do livro foi feito pra Kath. Ela tem a mão, a vivência e a sensibilidade. Trocamos ideias, conheci um pouco da história dela, e foi sempre uma artista muito boa de se trabalhar conjuntamente.

5 – Você acredita que o livro pode ajudar crianças a se conectarem com a cultura indígena e com a natureza?

Sim, sem dúvida. Olhar aquelas palavras de uma língua totalmente diferente desperta curiosidade. E perceber que elementos da nossa língua nascem do tupi-guarani faz toda diferença na compreensão de que somos, também, atravessados pela cultura indígena.

6 – Já levou o livro para escolas e eventos? Como foi a receptividade do público infantil?

Sim, já tive esta oportunidade algumas vezes, contando histórias e falando sobre o livro e a língua. A gente expande a experiência do livro, faz tudo parecer um pouco mais concreto, e as crianças são atraídas naturalmente pelas questões da natureza. Em uma escola aqui de Curitiba, as crianças fizeram até mesmo seu próprio livro de perguntas, um trabalho primoroso, que inspira o espírito científico na criança. Achei demais.

7 – Quais são os principais desafios e aprendizados ao trabalhar com uma abordagem bilíngue e culturalmente sensível em livros infantis?

Essa pergunta é bem complexa. Penso que o grande aprendizado pra mim é que não existe tema que não seja possível falar com uma criança, ou tratar em um livro. Já vi livros infantis incríveis com temas sobre luto, doenças, migração forçada, refugiados, etc. Acredito, então, que posso falar até dos grandes problemas sensíveis ao nosso mundo e aos indígenas, referentes a proteção de florestas, demarcações, conflitos, etc, desde que saiba como levar essa mensagem a uma criança, desde que esses temas estejam de alguma forma contextualizados. E penso que um livro como o Pergunte à floresta, que trata apenas da relação de uma criança com a natureza, é um bom começo para voltar o olhar de qualquer pessoa para as demais questões que estão postas na nossa sociedade. Pelo menos, vejo as coisas desta forma, o livro como janela para um mundo mais expandido.

 

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Postado em: 15 de janeiro de 2025

2 comentários para “Bate-papo com o autor Daniel Montoya

  1. Sara Nascente disse:

    Este livro é muito lindo e necessário. Como educadora sinto falta de livros que compartilhem a cultura de outros povos. Acredito que as escolas precisam estar mais conectadas com a cultura dos povos indígenas e a natureza. Esse belo trabalho do Daniel Montoya, precisa fazer parte da biblioteca das escolas.

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